CRNICA. Entre 1892 e 1894, 1892

  Entre 1892 e 1894

  Texto-fonte:

  Obra Completa, Machado de Assis,

  Rio de
    Janeiro: Nova Aguilar, V.II, 1994.

  Publicado originalmente
    em Pginas Recolhidas
    , Rio de Janeiro: Editora Garnier, 1906.

  VAE SOLI!

  (1892, julho)

  Um dia desta semana, farto de
    vendavais, naufrgios, boatos, mentiras, polmicas, farto de ver como se
    descompem os homens, acionistas e diretores, importadores e industriais,
      farto de mim, de ti, de todos, de um tumulto sem vida, de um silncio
    sem quietao, peguei de uma pgina de anncios, e disse comigo:

  'Eia, passemos em revista as
    procuras e ofertas, caixeiros desempregados, pianos, magnsias, sabonetes,
    oficiais de barbeiro, casas para alugar, amas-de-leite, cobradores, coqueluche,
    hipotecas, professores, tosses crnicas...'

  E o meu esprito, estendendo e
    juntando as mos e os braos, como fazem os nadadores, que caem do alto,
    mergulhou por uma coluna abaixo. Quando voltou  tona, trazia entre os dedos
    esta prola:

  Uma
    viva interessante, distinta, de boa famlia e independente de meios, deseja encontrar por esposo um homem de meia idade, srio, instrudo, e tambm com
      meios de vida, que esteja como ela cansado de viver s; resposta por
      carta ao escritrio desta folha, com as iniciais M. R...., anunciando, a fim de
      ser procurada essa carta.

  Gentil viva, eu no sou o homem que procuras, mas
    desejava ver-te, ou, quando menos, possuir o teu retrato, porque tu no s
    qualquer pessoa, tu vales alguma coisa mais que o comum das mulheres. Ai de
      quem est s! dizem as sagradas letras; mas no
    foi a religio que te inspirou esse anncio. Nem motivo teolgico, nem
    metafsico. Positivo tambm no, porque o positivismo  infenso s segundas
    npcias. Que foi ento, seno a triste, longa e aborrecida experincia? No
    queres amar; ests cansada de viver s.

  E a clusula de ser o esposo outro aborrecido, fato de
    solido, mostra que tu no queres enganar, nem sacrificar ningum. Ficam desde
    j excludos os sonhadores, os que amem o mistrio e procurem justamente esta
    ocasio de comprar um bilhete na loteria da vida. Que no pedes um dilogo de
    amor,  claro, desde que impes a clusula da meia idade, zona em que as
    paixes arrefecem, onde as flores vo perdendo a cor
    purprea e o vio eterno. No h de ser um nufrago,  espera de uma tbua de
    salvao, pois que exiges que tambm possua. E h de ser instrudo, para encher
    com as luzes do esprito as longas noites do corao, e contar (sem as mos
    presas) a tomada de Constantinopla.

  Viva dos meus pecados, quem s tu que sabes tanto? O teu
    anncio lembra a carta de certo capito da guarda de Nero. Rico, interessante,
    aborrecido, como tu, escreveu um dia ao grave Sneca, perguntando-lhe como se
    havia de curar do tdio que sentia, e explicava-se por figura: 'No  a
    tempestade que me aflige,  o enjo do mar'. Viva minha, o que tu queres
    realmente, no  um marido,  um remdio contra o enjo. Vs que a travessia
    ainda  longa, -- porque a tua idade est entre trinta e dois e trinta e
      oito anos, -- o mar 
        agitado, o navio joga muito; precisas de um preparado para matar esse mal cruel
        e indefinvel. No te contentas com o remdio de Sneca, que era justamente a
        solido, 'a vida retirada, em que a alma acha todo o seu sossego'. Tu
        j provaste esse preparado; no te fez nada. Tentas outro; mas queres menos um companheiro
        que uma companhia.

  Pode ser que a esta hora j
    tenhas achado o esposo nas condies definidas. No ests ainda casada, porque
     preciso fazer correr os preges, e tens alguns dias diante de ti, para
    examinar bem o homem. Lembra-te de Xisto V, amiga minha; no v ele sair, em
    vez de um corao arrimado  bengala, um corao com pernas, e umas pernas com
    msculos e sangue; no vs tu ouvir, em vez da tomada
    de Constantinopla, a queda de Margarida nos braos de Fausto. H desses
    coraes, nevados por cima, como esto agora as serras
    do Itatiaia e de Itajub, e contendo em si as lavas que o Etna est cuspindo
    desde alguns dias.

  Mas, se ele te sair o que queres, que grande prmio de
    loteria! Junto  amurada do navio, vendo a fria do mar e dos ventos, tu
    ouvirs muitas coisas srias e graciosas a um tempo,
    seguindo com os olhos a fria dos ventos e o tumulto das ondas livre, do enjo,
    como pedia aquele capito de Nero, e por diferente regmen do que lhe aconselhou o filsofo. E a tua concluso ser como a tua premissa;
    em caso de tdio, antes um marido que nada.

  SALTEADORES DA TESSLIA

  (1893, novembro)

  Tudo isto cansa, tudo isto exaure.
    Este sol  o mesmo sol, debaixo do qual, segundo uma palavra antiga, nada
    existe que seja novo. A lua no  outra lua. O cu azul ou embruscado, as estrelas e as nuvens, o galo da madrugada,  tudo a mesma
    coisa. L vai um para a banca da advocacia, outro para o gabinete mdico, este
    vende, aquele compra, aquele outro empresta, enquanto
    a chuva cai ou no cai, e o vento sopre ou no; mas sempre o mesmo vento e a
    mesma chuva. Tudo isto cansa, tudo isto exaure.

  Tal era a reflexo que eu fazia
    comigo, quando me trouxeram os jornais. Que me diriam eles que no fosse velho?
    A guerra  velha, quase to velha como a paz. Os prprios dirios so
    decrpitos. A primeira crnica do mundo  justamente a que conta a primeira
    semana dele, dia por dia at o stimo em que o Senhor descansou. O cronista
    bblico omite a causa do descanso divino; podemos supor que no foi outra seno
    o sentimento da caducidade da obra.

  Repito, que me trariam os dirios? As
    mesmas notcias locais e estrangeiras, os furtos do Rio e de Londres, as damas
    da Bahia e de Constantinopla, um incndio em Olinda, uma tempestade em Chicago,
    as cebolas do Egito, os juzes de Berlim, a paz de Varsvia, os Mistrios de
      Paris, a Lua de Londres, o Carnaval de Veneza... Abri-os sem
    curiosidade, li-os sem interesse, deixando que os olhos cassem pelas colunas
    abaixo, ao peso do prprio fastio. Mas os diabos estacaram de repente, leram,
    releram e mal puderam crer no que liam. Julgai por vs mesmos.

  Antes de ir adiante,  preciso
    saber a idia que fao de um legislador, e a que fao de um salteador. Provavelmente,
     a vossa. O legislador  o homem deputado pelo povo para votar os seus
    impostos e leis.  um cidado ordeiro, ora implacvel e violento, ora tolerante
    e brando, membro de uma cmara que redige, discute e vota as regras do governo, os deveres do cidado, as penas do crime. O salteador  o
    contrrio. O ofcio deste  justamente infringir as leis que o outro decreta.
    Inimigo delas, contrrio  sociedade e  humanidade, tem por gosto, prtica e
    religio tirar a bolsa aos homens, e, se for preciso, a vida. Foge naturalmente
    aos tribunais, e, por antecipao, aos agentes de polcia. A sua arma  uma
    espingarda; para que lhe serviriam penas, a no serem de ouro? Uma espingarda,
    um punhal, olho vivo, p leve, e mato, eis tudo o que ele pede ao cu. O mais 
    com ele.

  Dadas estas noes elementares,
    imaginai com que alvoroo li esta notcia de uma de nossas folhas: 'Na
    Grcia foi preso o deputado Talis, e expediu-se ordem
    de priso contra outros deputados, por fazerem parte de uma quadrilha de
    salteadores, que infesta a provncia de Tesslia'.
    Dou-vos dez minutos de incredulidade para o caso de no haverdes lido a
    notcia; e, se vos acomodais da monotonia da vida, podeis clamar contra
    semelhante acumulao. Chamai brbara  moderna
    Grcia, chamai-lhe opereta, pouco importa. Eu chamo-lhe sublime.

  Sim, essa mistura de discurso e
    carabina, esse apoiar o ministrio com um voto de confiana s duas horas da
    tarde, e ir espreit-lo s cinco,  beira da estrada,
    para tirar-lhe os restos do subsdio, no  comum, nem rara,  nica. As
    instituies parlamentares no apresentam em parte nenhuma esta variante. Ao
    contrrio, quaisquer que sejam as modificaes de clima, de raa ou de
    costumes, o regmen das cmaras difere pouco, e,
    ainda que difira muito, no ir ao ponto de pr na mesma curul Cato e Caco. H alguma coisa nova debaixo do sol.

  Durante meia hora fiquei como fora
    de mim. A situao , na verdade, aristofanesca. S a
    mo do grande cmico podia inventar e cumprir to extraordinria faccia. A
    folha que d a notcia no conta nada da provvel confuso de linguagem que h
    de haver nos dois ofcios. Quando algum daqueles deputados tivesse de falar na
    Cmara, em vez de pedir a palavra, podia muito bem pedir a bolsa ou a vida. Vice-versa, agredindo um viajante, pedir-lhe-ia dois
    minutos de ateno. E nada ficaria, em absoluto, fora do seu lugar; com dois
    minutos de ateno se tira o relgio a um homem, e mais de um na Cmara
    preferiria entregar a bolsa a ouvir um discurso.

  Mas, por todos os deuses do Olimpo! no h gosto perfeito na
    terra. No melhor da alegria, acudiu-me  lembrana o livro de Edmond About, onde me pareceu que havia alguma coisa semelhante 
    notcia. Corri a ele; achei a cena dos maniotas, que
    ameaavam brandamente um dos amigos do autor, se lhes no desse uma pequena
    quantia. O chefe do grupo era empregado subalterno da administrao local. About chega, ameaa por sua vez os homens, e, para
    assust-los, cita o nome de um deputado para quem levava carta de recomendao.
    'Fulano! exclamou o chefe da quadrilha, rindo; conheo muito,  dos
    nossos.'

  Assim, pois, nem isto  novo! J
    existia h quarenta anos! A novidade est no mandado de priso, se  a primeira
    vez que ele se expede, ou se at agora os homens faziam um dos dois ofcios
    discretamente. Fiquei triste. Eis a, tornamos  velha diviso de classes, que
    a terra de Homero podia destruir pela forma audaz de Talis.
    A volta a monotonia das funes separadas, isto , uma restrio  liberdade
    das profisses. A prpria poesia perde com isto; ningum ignora que o
    salteador, na arte,  um carter generoso e nobre. Talis, se  assim que se lhe escreve o nome, pode ser que tivesse
    ganho um par de sapatos a tiro de espingarda; mas estou certo que proporia na
    Cmara uma penso  viva da vtima. So duas operaes diversas, e a
    diversidade  o prprio esprito grego. Adeus, minha iluso de um instante!
    Tudo continua a ser velho; nihil sub sole novum.

  Eu pediria o perdo de Talis, se pudesse ser ouvido. Condenem os demais, se
    querem, mas deixem um, Talis ou outro qualquer, um
    funcionrio duplo, que tire ao parlamento grego o aspecto de uma instituio
    aborrecida. Que a Hlade deite os ministrios abaixo,
    se lhe apraz, mas no atire s guas do Eurotas um
    elemento de aventura e de poesia. Acabou com o turco, acabe com este
    modernismo, que  outro turco, diferente do primeiro em no ser silencioso. No
    esquea que Byron, um dos seus grandes amigos, deixou o parlamento britnico
    para fugir  discusso da resposta  fala do trono. E repare que no h, entre
    os seus poemas, nenhum que se chame O presidente do conselho, mas h um
    que se chama O Corsrio.

  O SERMO DO DIABO

  (1893, setembro)

  Nem sempre respondo por papis
    velhos; mas aqui est um que parece autntico; e, se o no , vale pelo texto, que  substancial.  um pedao do evangelho do Diabo,
    justamente um sermo da montanha,  maneira de S. Mateus. No se apavorem as
    almas catlicas. J Santo Agostinho dizia que 'a igreja do Diabo imita a
    igreja de Deus'. Da a semelhana entre os dois evangelhos. L vai o do
    Diabo:

  1 E vendo o Diabo a grande
    multido de povo, subiu a um monte, por nome Corcovado, e, depois de se ter
    sentado, vieram a ele os seus discpulos.

  2 E ele, abrindo a boca, ensinou
    dizendo as palavras seguintes.

  3 Bem-aventurados aqueles que
    embaam, porque eles no sero embaados.

  4 Bem-aventurados os afoitos,
    porque eles possuiro a terra.

  5 Bem-aventurados os limpos das
    algibeiras, porque eles andaro mais leves.

  6 Bem-aventurados os que nascem
    finos, porque eles morrero grossos.

  7 Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e disserem todo o mal, por meu
    respeito.

  8 Folgai e exultai, porque o
    vosso galardo  copioso na terra.

  9 Vs sois o sal do money market. E se o sal perder a fora, com que outra coisa
    se h de salgar?

  10 Vs sois a luz do mundo. No
    se pe uma vela acesa debaixo de um chapu, pois assim se perdem o chapu e a
    vela.

  11 No julgueis que vim destruir
    as obras imperfeitas, mas refazer as desfeitas.

  12 No acrediteis em sociedades
    arrebentadas. Em verdade vos digo que todas se consertam, e se no for com
    remendo da mesma cor, ser com remendo de outra cor.

  13 Ouvistes que foi dito aos
    homens: Amai-vos uns aos outros. Pois eu digo-vos: Comei-vos uns aos outros;
    melhor  comer que ser comido; o lombo alheio  muito mais nutritivo que o
    prprio.

  14 Tambm foi dito aos homens:
    No matareis a vosso irmo, nem a vosso inimigo, para que no sejais
    castigados. Eu digo-vos que no  preciso matar a vosso irmo para ganhardes o
    reino da terra; basta arrancar-lhe a ltima camisa.

  15 Assim, se
    estiveres fazendo as tuas contas, e te lembrar que teu irmo anda meio
    desconfiado de ti, interrompe as contas, sai de casa, vai ao encontro de teu
    irmo na rua, restitui-lhe a confiana, e tira-lhe o que ele ainda levar
    consigo.

  16 Igualmente ouvistes que foi
    dito aos homens: No jurareis falso, mas cumpri ao
    Senhor os teus juramentos.

  17 Eu, porm, vos digo que no
    jureis nunca a verdade, porque a verdade nua e crua, alm de indecente,  dura
    de roer; mas jurai sempre e a propsito de tudo, porque os homens foram feitos
    para crer antes nos que juram falso, do que nos que
    no juram nada. Se disseres que o sol acabou, todos acendero velas.

  18 No faais as vossas obras
    diante de pessoas que possam ir cont-lo  polcia.

  19 Quando, pois, quiserdes tapar
    um buraco, entendei-vos com algum sujeito hbil, que faa treze de cinco e
    cinco.

  20 No queirais guardar para vs
    tesouros na terra, onde a ferrugem e a traa os consomem, e donde os ladres os
    tiram e levam.

  21 Mas remetei os vossos tesouros
    para algum banco de Londres, onde nem a ferrugem, nem a traa os consomem, nem
    os ladres os roubam, e onde ireis v-los no dia do juzo.

  22 No vos fieis uns nos outros.
    Em verdade vos digo, que cada um de vs  capaz de
    comer o seu vizinho, e boa cara no quer dizer bom negcio.

  23 Vendei gato por lebre, e
    concesses ordinrias por excelentes, a fim de que a terra se no despovoe das
    lebres, nem as ms concesses peream nas vossas mos.

  24 No queirais julgar para que
    no sejais julgados; no examineis os papis do prximo para que ele no
    examine os vossos, e no resulte irem os dois para a cadeia, quando  melhor
    no ir nenhum.

  25 No tenhais medo s
    assemblias de acionistas, e afagai-as de preferncia s simples comisses,
    porque as comisses amam a vanglria e as assemblias as boas palavras.

  26 As porcentagens so as
    primeiras flores do capital; cortai-as logo, para que as outras flores brotem
    mais viosas e lindas.

  27 No deis conta das contas
    passadas, porque passadas so as contas contadas e perptuas as contas que se
    no contam.

  28 Deixai falar os acionistas
    prognsticos; uma vez aliviados, assinam de boa vontade.

  29 Podeis excepcionalmente amar a
    um homem que vos arranjou um bom negcio; mas no at o ponto de o no deixar
    com as cartas na mo, se jogardes juntos.

  30 Todo aquele que ouve estas
    minhas palavras, e as observa, ser comparado ao homem sbio, que edificou
    sobre a rocha e resistiu aos ventos; ao contrrio do homem sem considerao,
    que edificou sobre a areia, e fica a ver navios...

  Aqui acaba o manuscrito que me foi trazido pelo prprio
    Diabo, ou algum por ele; mas eu creio que era o prprio. Alto, magro, barbcula ao queixo, ar de Mefistfeles. Fiz-lhe uma cruz
    com os dedos e ele sumiu-se. Apesar de tudo, no respondo pelo papel, nem pelas
    doutrinas, nem pelos erros de cpia.

  CANO DE PIRATAS

  (1894, julho)

  Telegrama da Bahia refere que o
    Conselheiro est em Canudos com 2.000 homens (dois mil homens) perfeitamente
    armados. Que Conselheiro? O Conselheiro. No lhe ponhas nome algum, que  sair da
    poesia e do mistrio.  o Conselheiro, um homem, dizem que fantico, levando
    consigo a toda a parte aqueles dois mil legionrios. Pelas ltimas notcias
    tinha j mandado um contingente a Alagoinhas. Temem-se no Pombal e outros
    lugares os seus assaltos.

  Jornais recentes afirmam tambm
    que os clebres clavinoteiros de Belmonte tm fugido,
    em turmas, para o Sul, atravessando a comarca de Porto-Seguro. Essa outra
    horda, para empregar o termo do profano vulgo que odeio, no obedece ao mesmo
    chefe. Tem outro ou mais de um, entre eles o que
    responde ao nome de Cara de Graxa. Jornais e telegramas dizem dos clavinoteiros e dos sequazes do Conselheiro que so
    criminosos; nem outra palavra pode sair de crebros alinhados, registrados,
    qualificados, crebros eleitores e contribuintes. Para ns, artistas,  a
    renascena,  um raio de sol que, atravs da chuva mida e aborrecida, vem
    dourar-nos a janela e a alma.  a poesia que nos levanta do meio da prosa
    chilra e dura deste fim de sculo. Nos climas speros, a rvore que o inverno
    despiu  novamente enfolhada pela primavera, essa eterna florista que aprendeu
    no sei onde e no esquece o que lhe ensinaram. A arte
     a rvore despida: eis que lhe rebentam folhas novas e verdes.

  Sim, meus amigos. Os dois mil
    homens do Conselheiro, que vo de vila em vila, assim como os clavinoteiros de Belmonte, que se metem pelo serto,
    comendo o que arrebatam, acampando em vez de morar, levando moas naturalmente,
    moas cativas, chorosas e belas, so os piratas dos poetas de 1830. Poetas de 1894, a tendes matria nova e fecunda. Recordai
    vossos pais; cantai, como Hugo, a cano dos piratas:

  En mer, les
    hardis cumeurs!

  Nous allions
    de Fez  Catane...

  Entrai pela Espanha,  ainda a terra da imaginao de
    Hugo, esse homem de todas as ptrias; puxai pela memria, ouvireis Espronceda dizer outra cano de pirata, um que
    desafia a ordem e a lei como o nosso Conselheiro. Ide a Veneza; a Byron recita
    os versos do Corsrio no regao da bela Guiccioli.
    Tornai  nossa Amrica, onde Gonalves Dias tambm cantou o seu pirata. Tudo
    pirata. O romantismo  a pirataria,  o banditismo,  a aventura do salteador
    que estripa um homem e morre por uma dama.

  Crede-me, esse Conselheiro que est em
    Canudos com os seus dois mil homens, no  o que dizem telegramas e papis
    pblicos. Imaginai uma legio de aventureiros galantes, audazes, sem ofcio nem
    benefcio, que detestam o calendrio, os relgios, os impostos, as reverncias,
    tudo o que obriga, alinha a apruma. So homens fartos desta vida social e pacata,
    os mesmos dias, as mesmas caras, os mesmos acontecimentos, os mesmos delitos,
    as mesmas virtudes. No podem crer que o mundo seja uma secretaria de Estado,
    com o seu livro do ponto, hora de entrada e de sada, e desconto por faltas. O
    prprio amor  regulado por lei; os consrcios
    celebram-se por um regulamento em casa do pretor, e por um ritual na casa de
    Deus, tudo com etiqueta dos carros e casacas, palavras simblicas, gestos de
    conveno. Nem a morte escapa  regulamentao universal; o finado h de ter
    velas e responsos, um caixo fechado, um carro que o leve, uma sepultura
    numerada, como a casa em que viveu... No, por Satans! Os partidrios do
    Conselheiro lembraram-se dos piratas romnticos, sacudiram as sandlias  porta
    da civilizao e saram  vida livre.

  A vida livre, para evitar a morte igualmente livre,
    precisa comer, e da alguns possveis assaltos. Assim tambm o amor livre. Eles
    no iro s vilas pedir moas
    em casamento. Suponho
    que se casam a cavalo, levando
    as noivas  garupa, enquanto as mes ficam soluando e gritando  porta das
    casas ou  beira dos rios. As esposas do Conselheiro, essas so raptadas em
    verso, naturalmente:

  Sa Hautesse aime les primeurs,

  Nous vous ferons mahomtane...

  Maometana ou outra coisa, pois
    nada sabemos da religio desses, nem dos clavinoteiros,
    a verdade  que todas elas se afeioaro ao regmen,
    se regmen se pode chamar a vida errtica. Tambm h
    estrelas errticas, diro elas, para se consolarem. Que outra coisa podemos supor de tamanho nmero de gente? Olhai que tudo
    cresce, que os exrcitos de hoje no so j os dos tempos romnticos, nem as
    armas, nem os legisladores, nem os contribuintes, nada. Quando tudo cresce, no
    se h de exigir que os aventureiros de Canudos, Alagoinhas e Belmonte contem
    ainda aquele exguo nmero de piratas da cantiga:

  Dans la galre capitane,

  Nous tions quatre-vingts rameurs,

  mas mil, dois mil, no mnimo. Do
    mesmo modo,  poetas, devemos compor versos extraordinrios e rimas inauditas.
    Fora com as cantigas de pouco flego. Vamos faz-las de mil estrofes, com
    estribilho de cinqenta versos, e versos compridos, dois decasslabos atados
    por um alexandrino e uma redondilha. Plion sobre Ossa, versos de Adamastor, versos de Enclado.
    Rimemos o Atlntico com o Pacfico, a Via-Lctea com
    as areias do mar, ambies com malogros, emprstimos com calotes, tudo ao som
    das polcas que temos visto compor, vender e danar s no Rio de Janeiro. 
    vertigem das vertigens!

  GARNIER

  (1893, outubro)

  Segunda-feira desta semana, o livreiro Garnier saiu pela primeira vez de casa para ir a outra
    parte que no a livraria. Revertere ad locum tuum -- est escrito no alto da porta do
      cemitrio de S. Joo Batista. No, murmurou ele talvez dentro do caixo
      morturio, quando percebeu para onde o iam conduzindo, no  este o meu lugar;
      o meu lugar  na Rua do Ouvidor 71, ao p de uma carteira de trabalho, ao
      fundo,  esquerda:  ali que esto os meus livros, e minha correspondncia, as
      minhas notas, toda a minha escriturao.

  Durante meio sculo, Garnier no fez outra coisa, seno estar ali, naquele mesmo
    lugar, trabalhando. J enfermo desde alguns anos, com a morte no peito, descia
    todos os dias de Santa Teresa para a loja, de onde regressava antes de cair a noite. Uma tarde, ao encontr-lo na rua, quando se
    recolhia, andando vagaroso, com os seus ps direitos, metido em um sobretudo, perguntei-lhe por que no descansava algum
    tempo. Respondeu-me com outra pergunta: Pourriez-vous
      rsister, si vous tiez forc de ne plus faire ce que vous auriez fait pendant
      cinquante ans? Na
        vspera da morte, se estou bem informado, achando-se de p, ainda planejou
        descer na manh seguinte, para dar uma vista de olhos  livraria.

  Essa livraria  uma das ltimas
    casas da Rua do Ouvidor; falo de uma rua anterior e acabada. No cito os nomes
    das que se foram, porque no as conhecereis, vs que sois mais rapazes que eu,
    e abristes os olhos em uma rua animada e populosa onde se vendem, ao par de belas jias, excelentes queijos. Uma das ltimas figuras
    desaparecidas foi o Bernardo, o perptuo Bernardo, cujo nome achei ligado aos
    charutos do Duque de Caxias, que tinha fama de os fumar nicos, ou quase nicos. H casas como a Laemmert e o Jornal do Comrcio, que ficaram e prosperaram, embora os fundadores se
    fossem; a maior parte, porm, desfizeram-se com os donos.

  Garnier  das figuras derradeiras. No
    aparecia muito; durante os 20 anos das nossas relaes, conheci-o sempre no
    mesmo lugar, ao fundo da livraria, que a princpio era em outra casa, n 69,
    abaixo da Rua Nova. No pude conhec-lo na da Quitanda, onde se estabeleceu
    primeiro. A carteira  que pode ser a mesma, como o banco alto onde ele
    repousava, s vezes, de estar
    em
      p. A
    vivia sempre, pena na mo, diante de
      um grande livro, notas soltas, cartas que assinava ou lia. Com o gesto
    obsequioso, a fala lenta, os olhos mansos, atendia a toda gente. Gostava de
    conversar o seu pouco. Neste caso, quando a pessoa amiga chegava, se no era
    dia de mala ou se o trabalho ia adiantado e no era urgente, tirava logo os
    culos, deixando ver no centro do nariz uma depresso do longo uso deles.
    Depois vinham duas cadeiras. Pouco sabia da poltica da terra, acompanhava a de
    Frana, mas s o ouvi falar com interesse por ocasio da guerra de 1870. O
    francs sentiu-se francs. No sei se tinha partido; presumo que haveria
    trazido da ptria, quando aqui aportou, as simpatias da classe mdia para com a
    monarquia orleanista. No gostava do imprio
    napolenico. Aceitou a repblica, e era grande admirador de Gambetta.

  Daquelas conversaes tranqilas,
    algumas longas, esto mortos quase todos os
    interlocutores, Liais, Fernandes Pinheiro, Macedo
    Joaquim Norberto, Jos de Alencar, para s indicar estes. De resto, a livraria
    era um ponto de conversao e de encontro. Pouco me dei com Macedo, o mais
    popular dos nossos autores, pela Moreninha e pelo Fantasma Branco,
    romance e comdia que fizeram as delcias de uma gerao inteira. Com Jos de
    Alencar foi diferente; ali travamos as nossas relaes literrias. Sentados os
    dois, em frente  rua, quantas vezes tratamos daqueles negcios de arte e
    poesia, de estilo e imaginao, que valem todas as canseiras deste mundo.
    Muitos outros iam ao mesmo ponto de palestra. No os cito, porque teria de nomear
    um cemitrio, e os cemitrios so tristes, no em si mesmos, ao contrrio.
    Quando outro dia fui a enterrar o nosso velho livreiro, vi entrar no de S. Joo
    Batista, j acabada a cerimnia e o trabalho, um bando de crianas que iam
    divertir-se. Iam alegres, como quem no pisa memrias
    nem saudades. As figuras sepulcrais eram, para elas, lindas bonecas de pedra;
    todos esses mrmores faziam um mundo nico, sem embargo das suas flores
    mofinas, ou por elas mesmas, tal  a viso dos primeiros anos. No citemos
    nomes.

  Nem mortos, nem vivos. Vivos h-os
    ainda, e dos bons, que alguma coisa se lembraro daquela casa e do homem que a fez e perfez. Editar obras jurdicas ou
    escolares, no  mui difcil; a necessidade  grande, a procura certa. Garnier, que fez custosas edies dessas, foi tambm editor
    de obras literrias, o primeiro e o maior de todos. Os seus catlogos esto
    cheios dos nomes principais, entre os nossos homens de letras. Macedo e
    Alencar, que eram os mais fecundos, sem igualdade de mrito, Bernardo
    Guimares, que tambm produziu muito nos seus ltimos anos, figuram ao p de
    outros, que entraram j consagrados, ou acharam naquela casa a porta da
    publicidade e o caminho da reputao.

  No  mister lembrar o que era essa livraria to copiosa e to variada, em que havia tudo,
    desde a teologia at  novela, o livro clssico, a composio recente, a
    cincia e a imaginao, a moral e a tcnica. J a achei feita;
    mas vi-a crescer ainda mais, por longos anos. Quem a v
      agora, fechadas as portas, trancados os mostradores,  espera da
    justia, do inventrio e dos herdeiros, h de sentir que falta alguma coisa 
    rua. Com efeito, falta uma grande parte dela, e bem pode ser que no volte, se
    a casa no conservar a mesma tradio e o mesmo esprito.

  Pessoalmente, que proveito deram a esse homem as suas labutaes? O gosto do trabalho,
    um gosto que se transformou em pena, porque no dia em que devera libertar-se
    dele, no pde mais; o instrumento da riqueza era tambm o do castigo. Esta 
    uma das misericrdias da Divina Natureza. No importa: laboremus.
    Valha sequer a memria, ainda que perdida nas pginas dos dicionrios
    biogrficos. Perdure a notcia, ao menos, de algum que neste pas novo ocupou
    a vida inteira em criar uma indstria liberal, ganhar alguns milhares de contos
    de ris, para ir afinal dormir em sete palmos de uma sepultura perptua.
    Perptua!

  A CENA DO CEMITRIO

  (1894, junho)

  No mistureis alhos com bugalhos;
     o melhor conselho que posso dar s pessoas que lem de noite na cama. A noite passada, por infringir essa regra, tive um pesadelo
    horrvel. Escutai; no perdereis os cinco minutos de audincia.

  Foi o caso que, como no tinha
    acabado de ler os jornais de manh, fi-lo  noite.
    Pouco j havia que ler, trs notcias e a cotao da
    praa. Notcias da manh, lidas  noite, produzem sempre o efeito de modas
    velhas, donde concluo que o melhor encanto das gazetas est na hora em que
    aparecem. A cotao da praa, conquanto tivesse a mesma feio, no a li com
    igual indiferena, em razo das recordaes que trazia do ano terrvel
    (1890-91). Gastei mais tempo a l-la e rel-la. Afinal pus os jornais de lado,
    e, no sendo tarde, peguei de um livro, que acertou de ser Shakespeare. O drama
    era Hamlet. A pgina, aberta ao acaso, era a cena do cemitrio, ato V.
    No h que dizer ao livro nem  pgina; mas essa mistura de
      poesia e cotao de praa, de gente morta e dinheiro vivo, no podia gerar nada bom; eram alhos com bugalhos.

  Sucedeu o que era de esperar; tive
    um pesadelo. A princpio, no pude dormir; voltava-me de um lado para outro,
    vendo as figuras de Hamlet e de Horcio, os coveiros e as caveiras, ouvindo a
    balada e a conversao. A muito custo, peguei no sono.
    Antes no pegasse! Sonhei que era Hamlet; trazia a mesma capa negra, as meias,
    o gibo e os cales da mesma cor. Tinha a prpria alma do prncipe de
    Dinamarca. At a nada houve que me assustasse. Tambm no me aterrou ver, ao
    p de mim, vestido de Horcio, o meu fiel criado Jos. Achei natural: ele no o
    achou menos. Samos de cara para o cemitrio; atravessamos uma rua que nos
    pareceu ser a Primeiro de Maro e entramos em um espao que era metade
    cemitrio, metade sala. Nos sonhos h confuses dessas, imaginaes duplas ou
    incompletas, mistura de coisas opostas, dilaceraes, desdobramentos
    inexplicveis; mas, enfim, como eu era Hamlet e ele Horcio, tudo aquilo devia
    ser cemitrio. Tanto era que ouvimos logo a um dos coveiros esta estrofe:

  Era um ttulo novinho,

  Valia mais de oitocentos;

  Agora que est velhinho

  No chega a valer duzentos.

  Entramos e escutamos. Como na tragdia, deixamos que os
    coveiros falassem entre si, enquanto faziam a cova de Oflia. Mas os coveiros
    eram ao mesmo tempo corretores, e tratavam de ossos e papis. A um deles ouvia
    bradar que tinha trinta aes da Companhia Promotora das Batatas Econmicas.
    Respondeu-lhe outro que dava cinco mil-ris por elas. Achei pouco dinheiro e
    disse isto mesmo a Horcio, que me respondeu, pela boca de Jos: 'Meu
    senhor, as batatas desta companhia foram prsperas enquanto os portadores dos
    ttulos no as foram plantar. A economia da nobre instituio consistia
    justamente em no plantar o precioso tubrculo; uma vez que o plantassem, era
    indcio certo da decadncia e da morte'.

  No entendi bem; mas os coveiros, fazendo saltar caveiras
    do solo, iam dizendo graas e apregoando ttulos. Falavam de bancos, do Banco
    nico, do Banco Eterno, do Banco dos Bancos, e os respectivos ttulos eram
    vendidos ou no, segundo oferecessem por eles sete tostes ou duas patacas. No
    eram bem ttulos nem bem caveiras; eram as duas coisas
    juntas, uma fuso de aspectos, letras com buracos de olhos, dentes por
    assinaturas. Demos mais alguns passos, at que eles nos viram. No se
    admiraram; foram indo com o trabalho de cavar e
    vender. -- Cem da
      Companhia Balsmica! -- Trs mil-ris. -- So suas. -- Vinte e cinco da Companhia
        Salvadora! -- Mil-ris! -- Dois
          mil-ris! -- Dois mil e
            cem! -- E
              duzentos! -- E
                quinhentos! -- So suas.

  Cheguei-me a um, ia a falar-lhe, quando fui interrompido
    pelo prprio homem: '-- Pronto Alvio! meus senhores! Dez do Banco Pronto Alvio!
      No do nada, meus senhores? Pronto Alvio! senhores... Quanto
        do? Dois tostes? Oh! no! no! valem mais! Pronto Alvio! Pronto
      Alvio!' O homem calou-se afinal, no sem ouvir de outro coveiro que, como
      alvio, o banco no podia ter sido mais pronto. Faziam trocadilhos, como os
      coveiros de Shakespeare. Um deles, ouvindo apregoar sete aes do Banco
      Pontual, disse que tal banco foi realmente pontual at o dia em que passou do
      ponto  reticncia. Como esprito, no era grande coisa; da a chuva de tbias
      que caiu em cima do autor. Foi uma cena lgubre e alegre ao mesmo tempo. Os
      coveiros riam, as caveiras riam, as rvores, torcendo-se ao
        ventos da Dinamarca, pareciam torcer-se de riso, e as covas abertas
      riam,  espera que fossem chorar sobre elas.

  Surdiram muitas outras caveiras ou ttulos. Da Companhia
    Exploradora de Alm-Tmulo apareceram cinqenta e quatro, que se venderam a dez
    ris. O fim desta companhia era comprar para cada acionista um lote de trinta
    metros quadrados no Paraso. Os primeiros ttulos, em maro de 1891, subiram a
    conto de ris; mas se nada h seguro neste mundo
    conhecido, pode hav-lo no incognoscvel? Esta dvida entrou no esprito do
    caixa da companhia, que aproveitou a passagem de um paquete transatlntico,
    para ir consultar um telogo europeu, levando consigo tudo o que havia mais
    cognoscvel entre os valores. Foi um coveiro que me contou este antecedente da
    companhia. Eis aqui, porm, surdiu uma voz do fundo da cova, que estavam
    abrindo. Uma debenture! uma debenture!

  Era j outra coisa. Era uma debenture.
    Cheguei-me ao coveiro, e perguntei que era que estava dizendo. Repetiu o nome
    do ttulo. Uma debenture? -- Uma debenture.
      Deixe ver, amigo. E, pegando nela, como Hamlet, exclamei, cheio de melancolia:

  -- Alas, poor Yorick! Eu a conheci, Horcio. Era um ttulo magnfico. Estes
    buracos de olhos foram algarismos de brilhantes, safiras e opalas. Aqui, onde
    foi nariz, havia um promontrio de marfim velho lavrado; eram de ncar estas
    faces, os dentes de ouro, as orelhas de granada e safira. Desta boca saam as
    mais sublimes promessas em estilo alevantado e nobre. Onde esto agora as belas
    palavras de outro tempo? Prosa eloqente e fecunda, onde param os longos perodos, as frases galantes, a arte com que fazias ver a gente
    cavalos soberbos com ferraduras de prata e arreios de ouro? Onde os carros de
    cristal, as almofadas de cetim? Dize-me c, Horcio.

  -- Meu senhor...

  -- Crs que uma letra de Scrates
    esteja hoje no mesmo estado que este papel?

  -- Seguramente.

  -- Assim que, uma promessa de dvida
    do nobre Scrates no ser hoje mais que uma debenture escangalhada?

  -- A mesma coisa.

  -- At onde podemos descer, Horcio! Uma letra de Scrates pode vir a ter os
    mais tristes empregos deste mundo; limpar os sapatos, por exemplo. Talvez ainda
    valha menos que esta debenture.

  -- Saber Vossa Senhoria que eu no
    dava nada por ela.

  -- Nada? Pobre Scrates! Mas espera,
    calemo-nos, a vem um enterro.

  Era o enterro da Oflia. Aqui o pesadelo foi-se tornando
    cada vez mais aflitivo. Vi os padres, o rei e a rainha, o squito, o caixo. Tudo
    se me fez turvo e confuso. Vi a rainha deitar flores sobre a defunta. Quando o
    jovem Laertes saltou dentro da cova, saltei tambm; ali dentro atracamo-nos,
    esbofeteamo-nos. Eu suava, eu matava, eu sangrava, eu gritava...

  -- Acorde, patro! acorde!
